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O casamento entre tecnologia e escola
As árvores de conhecimentos, um instrumento para a inteligência coletiva na educação e na formação*
por Pierre Lévy - publicado em 17/01/2007

Aprendizagens permanentes e personalizadas através de navegação, orientação dos estudantes em um espaço do saber flutuante e destotalizado, aprendizagens cooperativas, inteligência coletiva no centro de comunidades virtuais, desregulamentação parcial dos modos de reconhecimento dos saberes, gerenciamento dinâmico das competências em tempo real... esses processos sociais atualizam a nova relação com o saber. Michel Authier e eu mesmo imaginamos um dispositivo informatizado em rede que tende a acompanhar, a integrar e a colocar em sinergia, de forma positiva, todos esses processos. As árvores de conhecimentos1 são um método informatizado para o gerenciamento global das competências nos estabelecimentos de ensino, empresas, bolsas de emprego, coletividades locais e associações. Está sendo hoje experimentada em diversos locais na Europa, particularmente na França, em grandes empresas como a Électricité de France e a PSA (Peugeot e Citroën), em empresas médias, universidades, escolas de administração, coletividades locais (municipalidades, região Poitou-Charentes), conjuntos habitacionais etc.

Graças a essa abordagem, cada membro de uma comunidade pode fazer com que toda a diversidade de suas competências seja reconhecida, mesmo as que não foram validadas pelos sistemas escolares e universitários clássicos. Crescendo a partir das autodescrições dos indivíduos, uma árvore de conhecimentos torna visível a multiplicidade organizada das competências disponíveis em uma comunidade. Trata-se de um mapa dinâmico, consultável na tela, que possui de fato o aspecto de uma árvore, e cada comunidade faz crescer uma árvore de forma diferente.

Entendo por competências tanto as habilidades comportamentais (saber ser) quanto os savoirs-faire ou os conhecimentos teóricos. Cada competência elementar é reconhecida nos indivíduos por meio da obtenção de um "brevê", em função de um procedimento (teste, cooptação pelos pares, fornecimento de prova etc.) especificada de forma precisa.

Legível na tela, o mapa dinâmico dos savoirs-faire de um grupo não resulta de nenhuma classificação a priori dos saberes: produzida automaticamente por um programa, é a expressão, evoluindo em tempo real, dos percursos de aprendizagem e de experiência dos membros da coletividade. A árvore de uma comunidade cresce e se transforma na mesma medida em que as competências da própria comunidade evoluem.

Assim, os brevês dos saberes básicos serão colocados no "tronco". Os brevês de saberes muito especializados de fim de cursos formarão as "folhas". Os "galhos" reunirão as competências quase sempre associadas nas listas individuais de competências dos indivíduos etc. Mas a organização do saber expressa por uma árvore não é fixada para sempre: ela reflete a experiência coletiva de um grupo humano e vai, portanto, evoluir com essa experiência. Por exemplo, um brevê que se encontra sobre uma folha no tempo "t" pode ter descido para um galho no tempo "t+n". A árvore, diferente para cada comunidade, não reflete as divisões habituais em disciplinas, em níveis, em cursos ou de acordo com recortes institucionais. Ao contrário, o dispositivo de indexação dinâmica e de navegação que ela propõe produz um espaço do saber sem separações, em reorganização permanente de acordo com os contextos e os usos.

A representação em árvore de conhecimentos permite a localização, por simples inspeção, da posição ocupada por determinado saber em um momento dado e os itinerários de aprendizagem possíveis para ter acesso a esta ou aquela competência. Cada indivíduo possui uma imagem pessoal (uma distribuição original de brevês) na árvore, imagem que ele pode consultar a qualquer momento. Chamamos essa imagem de "brasão" da pessoa, para marcar que a verdadeira nobreza de nossos dias é conferida pela competência. As pessoas adquirem, assim, uma melhor apreensão de sua situação no "espaço do saber" das comunidades das quais participam e podem elaborar, com conhecimento de causa, suas próprias estratégias de aprendizagem.

Sistemas de correio eletrônico "listados pelo conhecimento" correlacionam o conjunto de ofertas e demandas de savoir-faire no centro da comunidade e assinalam as disponibilidades de formações e de trocas para cada competência elementar. Trata-se, portanto, de um instrumento a serviço do laço social pela troca dos saberes e emprego das competências. Todas as transações e interrogações gravadas pelo dispositivo contribuem para determinar constantemente o valor (sempre contextual) das competências elementares em função dos diferentes critérios econômicos, pedagógicos e sociais. Essa avaliação contínua por meio do uso é um mecanismo essencial de autoregulação.

No nível de uma localidade, o sistema das árvores de competências pode contribuir para lutar contra a exclusão e o desemprego ao reconhecer os savoirs-faire daqueles que não possuem nenhum diploma, ao favorecer uma melhor adaptação da formação para o emprego, ao estimular um verdadeiro "mercado da competência". Em nível de redes de escolas e de universidades, o sistema permite empregar uma pedagogia cooperativa descompartimentalizada e personalizada. Em uma organização, as árvores de conhecimentos oferecem instrumentos de localização e de mobilização dos savoirs-faire, de avaliação das formações, assim como uma visão estratégica das evoluções e das necessidades de competências.

Ao permitir que todos os tipos de dispositivos de aprendizagem desemboquem em uma qualificação, o dispositivo das "árvores" permite um melhor gerenciamento das competências. De forma complementar, ao avaliar os sinas de competências em tempo real, o gerenciamento das competências contribui para validar a qualificação. Cada pessoa que se autodefiniu ao obter um certo número de sinais de competência torna-se, ao mesmo tempo, acessível pela rede. Ela está indexada no espaço de navegação e pode, portanto, ser contatada para trocas de saberes ou demandas de competências. Uma melhoria do processo de qualificação possui, portanto, efeitos positivos sobre a sociabilidade. Esse instrumento torna visível em tempo real a evolução rápida de competências muito diversas. Ao permitir a expressão da diversidade das competências, não restringe os indivíduos a uma profissão ou categoria, favorecendo assim o desenvolvimento pessoal contínuo.

Cada país possui hoje um sistema de diplomas e de reconhecimento dos saberes diferente. Além disso, dentro de um mesmo país, os diplomas - sabidamente insuficientes quanto a isso - são o único sistema de representação das competências comum a todos os ramos da indústria, a todas as empresas e a todos os meios sociais. No mais, há uma grande heterogeneidade em curso. Ora, o dispositivo das árvores de conhecimentos pode traduzir os outros sistemas de reconhecimento dos saberes e mutualizar os signos de competências.

Nectar: um exemplo de uso internacional das árvores de conhecimentos

Durante os anos 1994 e 1995, um projeto internacional utilizando as árvores de conhecimentos, financiado pela União Européia, foi desenvolvido pelos departamentos de Business Administration de cinco universidades: a de Aarhus na Dinamarca, a de Siena na Itália, a de Limerick na Irlanda, a de Lancaster na Inglaterra e a de Genebra na Suíça. O projeto, batizado de Nectar (Negociating European Credit Transfer and Recognition), visava facilitar a circulação de estudantes pela Europa por meio da construção cooperativa de um sistema comum de reconhecimento dos saberes. De fato, atualmente é difícil estabelecer equivalências entre diplomas europeus e mais ainda entre diplomas de anos, semestres ou módulos diferentes. O procedimento adotado foi o seguinte: atribuiu-se um certo número de brevês a cada um dos cursos ministrados pelos departamentos universitários dos cinco países. Esses brevês correspondiam às competências adquiridas pelos estudantes que cursaram a matéria com sucesso. A "tradução" dos cursos em brevês, proposta pela equipe internacional do projeto, foi aprovada, e algumas vezes modificada, pelo conjunto de professores envolvidos. Passou-se assim de uma lógica do ensino para uma abordagem em termos de competências adquiridas pelos estudantes.

Parte da dificuldade vinha do fato de os recortes disciplinares, os títulos dos cursos e seus conteúdos serem diferentes nas universidades que participavam do projeto, mas a linguagem de descrição das competências atribuídas pelos brevês (mais fina, mais "microscópica" que a dos cursos) deveria ser a mesma para todos. De forma surpreendente, esse objetivo foi atingido sem maiores dificuldades, sobretudo graças ao uso de uma conferência eletrônica on-line interconectando todos os participantes. Uma vez realizada a transposição dos cursos em brevês, foi fácil fazer crescer as árvores de conhecimentos das universidades a partir das gravações dos resultados de seus estudantes. A árvore de cada uma das cinco universidades podia ser visualizada de forma independente, mas uma "grande árvore" reunia os estudantes das cinco instituições. Assim, cada estudante podia:
- comunicar-se com outros estudantes em função de seu perfil de competências e das matérias que haviam cursado,
- observar sua posição pessoal na árvore comum,
- determinar o perfil de competência suplementar que ele desejasse adquirir,
- consultar em tempo real a descrição de todos os cursos (das cinco universidades) que lhe permitiriam aproximar-se do perfil desejado da forma mais fácil.

Nota-se que o estudante é inicialmente levado a pensar sobre as competências que deseja adquirir (ajudado pela árvore) e apenas depois ele consulta as informações sobre as matérias que ele poderá cursar para adquirir essas competências. É, portanto, com conhecimento de causa que ele pode escolher viajar para Sienna ou Aarhus, por exemplo, ou então permanecer em Lancaster no próximo semestre. O correio eletrônico permite que ele peça informações de primeira mão aos estudantes que cursaram matérias de outra universidade. O estudante pode, então, preparar sua viagem visualizando a posição que seu brasão terá na universidade onde será futuramente acolhido. Os brasões dos estudantes têm geralmente uma posição "normal" na árvore de sua universidade de origem, mas "excêntrica" na árvore da universidade de destino, para a qual levam, muitas vezes, novas competências.

Durante esse projeto, a equipe internacional pode medir a que ponto as noções de pré-requisitos são relativas. Por exemplo, nas universidades de tradição intelectual anglo-saxônica, os brevês que assinalam competências teóricas ou históricas encontram-se em geral no alto da árvore (adquiridas mais tarde nos cursos), enquanto os savoirs-faire práticos e os estudos de casos encontram-se antes nos troncos (adquiridos no início dos cursos). As posições respectivas dos brevês correspondentes a essas competências se encontravam invertidas nas árvores de tradição intelectual "latina".

Uma das principais vantagens da abordagem validada pelo projeto Nectar é evidentemente o efeito de descompartimentalização internacional e de otimização dos recursos universitários. A mesma linguagem (os brevês que assinalam as competências) é usada em todos os lugares, mas a especificidade de cada ambiente cultural e institucional é respeitada, já que cada universidade faz crescer uma árvore diferente, refletindo a originalidade de sua organização dos saberes.

A mobilidade é encorajada. Cada estudante pode passar de uma coletividade para outra, de um país para outro, conservando sempre a mesma lista de brevês que define suas competências: essa lista (eventualmente enriquecida por sucessivas experiências) terá automaticamente, em cada árvore, aspectos e valores diferentes.

Um sistema universal sem totalidade

O que pode ser feito em um projeto internacional reunindo cinco países pode ser realizado a fortiori em um único país ou, de forma ainda mais fácil, dentro de uma universidade, com os mesmos efeitos de exposição global, de otimização dos recursos, de descompartimentalização, de incitação às cooperações transversais e à mobilidade. Também é possível acrescentar ao brasão dos estudantes as competências provenientes de sua experiência social ou profissional, conectar empregadores às árvores das universidades etc. Isso foi compreendido pelas escolas de comércio e pelos estabelecimentos de pesquisa e de ensino superior que optaram pelas árvores de conhecimentos.

Podemos ver todo o interesse desse tipo de sistema em uma perspectiva internacional: não se trata de uma normalização ou de uma regulamentação autoritária dos diplomas já que, em cada comunidade particular, os mesmos brevês, os mesmos perfis (conjunto de brevês) poderão ter posições e valores variáveis, correspondendo às características de uso e à cultura local. E, ainda assim, qualquer um poderá passar de uma coletividade para outra, de um país para outro, conservando sempre a mesma lista de brevês que define suas competências: essa lista terá automaticamente em cada árvore aspectos e valores diferentes.

É possível fundir, dividir, conectar árvores, mergulhar pequenas árvores em outras maiores etc. O espaço dos sinais de competências aqui proposto pode ser generalizado progressivamente, por extensão e conexão, sem nunca impor normas a priori. Da mesma forma como a cibercultura nascente, as árvores de conhecimentos propõem uma abordagem universal (o mesmo dispositivo virtualmente utilizável em todos os lugares e permitindo todas as formas de coordenação, todas as transferências, passagens e percursos imagináveis), mas sem totalização, já que a natureza, a organização e o valor dos conhecimentos não são fixados e permanecem nas mãos das diferentes comunidades.

A perspectiva traçada aqui não requer de forma alguma o apoio de decisões centrais e organizadas em grande escala. Um projeto local mais particularmente centrado na luta contra a exclusão e a socialização por meio da aprendizagem pode ser desenvolvido em um lugar, enquanto outro projeto versando sobre novos dispositivos de formação e de qualificação será desenvolvido em outro lugar. Um deles será uma iniciativa visando mais particularmente a indexação dinâmica dos recursos de formação. Outro, realizado em uma empresa ou comunidade, será uma experiência tentando criar novas formas de gerenciamento das competências... A convergência, progressiva, sempre fundada no voluntariado e a implicação dos atores interessados encontram-se, contudo, asseguradas a longo prazo pela coerência do esquema proposto e por sua adequação às figuras emergentes da relação com o saber.

Pierre Lévy é filósofo.

* Artigo do livro Cibercultura, da Editora 34.


NOTAS
1. As árvores de conhecimentos, ou árvores de competências, são uma marca registrada da Trivium S.A. Elas crescem graças ao programa GingoTM, desenvolvido por essa mesma empresa. Ver Michel Authier e Pierre Lévy, Les arbres de con-naissances, prefácio de Michel Serres, Paris, La Découverte, 1992, nova edição 1996, aumentada por um posfácio, em formato de bolso, do mesmo editor.



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